Além do PIB: o que significa ser uma economista heterodoxa?

No artigo passado, apresentei um panorama das policrises sociais, ambientais e econômicas que estamos vivendo. Se você perdeu, pode ler aqui. Essa foi uma introdução ao tema desta coluna sobre Novas Economias, ou economia heterodoxa. Hoje quero explicar rapidamente o que diferencia as economias ortodoxas das heterodoxas, e por que me apresento como uma economista heterodoxa.

Primeiro, vamos lembrar que economia significa literalmente “gestão da casa” (EKOS = casa; NOMIA = gestão). Trata-se da forma como gerenciamos nossa sociedade, cidades e planeta, buscando o bem-estar coletivo e respeitando limites ecológicos.

Economia ortodoxa

Chamada também de neoclássica, predomina atualmente e considera que:

  • O comportamento humano é racional, buscando sempre maximizar o benefício individual.
  • Fatores produtivos (trabalho, capital, recursos naturais) são substituíveis entre si.
  • O mercado é auto suficiente para equilibrar oferta e demanda, com mínima intervenção do Estado.
  • O crescimento econômico contínuo (medido pelo PIB) é fundamental para o progresso.

Economia heterodoxa

Contrapõe os princípios simplistas e reúne abordagens diversas como a economia ecológica, feminista, donut e pós-keynesiana, entre outras. Suas principais características são:

  • Reconhecimento dos limites físicos e ecológicos: recursos naturais não são infinitamente substituíveis. A sustentabilidade real exige respeitar esses limites.
  • Foco no bem-estar social e não apenas no crescimento econômico. Propõe indicadores múltiplos (como o Donut de Kate Raworth), que consideram tanto necessidades sociais básicas quanto limites planetários.
  • Consideração das relações de poder e desigualdades sociais: questiona a neutralidade do mercado e reconhece diferentes acessos a recursos e oportunidades.
  • Economia como sistema aberto e integrado à sociedade e à natureza, não isolado ou autossuficiente.
Logo, ser uma economista heterodoxa significa:
  1. Não seguir apenas uma única corrente econômica. Eu combino diferentes abordagens — ecológica, feminista, donut, circular, pós-keynesiana, entre outras —  compreendendo a economia conectada à sociedade, política e natureza.
  2. Trabalhar em soluções que melhorem efetivamente a qualidade de vida das pessoas e protejam recursos naturais, pensando em gerações futuras.
  3. Criticar o modelo tradicional, que frequentemente ignora desigualdades e impactos ambientais negativos. O equilíbrio do mercado, sozinho, não resolve problemas estruturais como injustiça social ou crises ecológicas.
  4. Ver a economia como um sistema aberto e interdependente, considerando como ela afeta e é afetada pelo meio ambiente e sociedade. A economia precisa funcionar dentro de limites ecológicos claros e de forma socialmente inclusiva.
  5. Ter um compromisso claro com sustentabilidade e justiça social, buscando medir o progresso de maneiras que vão além do PIB e da acumulação financeira.

Por exemplo, enquanto economistas tradicionais valorizam o crescimento do PIB como principal medida de sucesso, nós, economistas heterodoxos, questionamos esse crescimento. Em outras palavras, não basta apenas observar os números, é preciso olhar se: está criando mais desigualdade? Está destruindo recursos naturais essenciais?

Para nós, progresso verdadeiro é melhorar a vida das pessoas sem comprometer nosso futuro. Ser economista heterodoxa é, portanto, escolher um caminho de pensamento que integra a economia à vida, priorizando o cuidado com as pessoas e com o planeta.

Na próxima coluna, portanto, apresentarei para vocês a Economia Donut. Na qual sou uma estudiosa entusiasta, o que me levou a ser uma das co-fundadoras do Donut Brasil, um movimento que estuda e experimenta essa nova proposta de economia em diversos setores. Mas isso é para nosso próximo encontro.

 


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